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Há um ano, os deuses da bola puniam o Brasil

jul 7 • Seleção Brasileira1 comentário em Há um ano, os deuses da bola puniam o Brasil

Antes da semifinal começar contra a Alemanha, no Mineirão, eu estava um tanto ressabiado diante da força do inimigo. A seleção brasileira não empolgava no Mundial e os jogadores, assustados, não conseguiam convencer. As vitórias aconteciam, mas o time não passava confiança. E na semifinal, era nítida a diferença entre as seleções. Um Brasil inseguro, escorado na torcida e uma Alemanha forte, fria e bem armada.

O Brasil havia perdido Neymar na partida anterior, diante da Colômbia, o único lampejo do futebol pentacampeão, num time mal convocado e mal escalado por um treinador superado como o Felipão.

Estava preparado para entrar ao vivo no programa do Portal Terra, um dos veículos de comunicação que trabalhei durante o Mundial. À noite teria também o programa “Depois do Jogo”, no Canal Bandsports, ao lado da apresentadora Mirelle Moschella, onde apresentávamos os gols da rodada e tudo que acontecerá de mais importante no dia da Copa do Mundo.

O Brasil vencendo a Alemanha seria o máximo, pois o time estaria na final e os programas seriam ainda melhores, com a festa do povo nas ruas do país do futebol. No entanto, algo me incomodava. No fundo, não acreditava na seleção por mais que o jogo fosse em nosso quintal e por mais que o povo, revoltado com a Copa do Mundo no Brasil e com o rumo do país, cantava o hino “à capela”, numa emoção que contagiava a todos.

Com o jogo rolando, a agonia de antes da partida se confirmou. O Brasil não fez frente à Alemanha. Pelo contrário, tornou-se uma presa fácil para um rival disciplinado e talentoso.

Com os gols, busquei nas ligações ao meu pai, ainda vivo e residindo em Sorocaba (morreu no início deste ano, também com a dor do 7 a 1), um pouco de conforto diante da decepção.

A revolta bateu forte até o placar apontar 4 a 0, depois disso a tristeza me abateu. Um sentimento ruim tomou conta de mim, numa sensação parecida a que senti na derrota da seleção no Sarriá, para a Itália, em 1982. Em 20 anos de jornalismo e pelo menos 16 na cobertura de futebol, a decepção e tristeza tomavam conta de mim de forma avassaladora, sofrida.

Os gols alemães aconteciam e um filme passava em minha cabeça. Voltei à época de moleque, quando a seleção não vencia um Mundial, é verdade, mas era respeitada e temida pelos adversários. O desrespeito alemão com a camisa amarelinha doeu na alma.

Entrar ao vivo no programa do Terra e depois, à noite, no Bandsports, foi uma tarefa árdua. Ainda atônito, buscava palavras que confortasse também a dor do torcedor brasileiro. O dia 8 de julho de 2014 foi atípico, triste e marcante. Nunca mais vou me esquecer da tarde/noite que a maior seleção do mundo foi massacrada sem piedade por uma seleção alemã que, por fim, teve pena dos donos da casa e “tirou o pé”, numa atitude que machucou ainda mais o coração de nós, brasileiros.

Passado um ano, o 7 a 1 virou uma espécie de jargão diante das mazelas que assolam ainda o futebol brasileiro. Já escrevi que o placar foi pequeno e o Brasil merecia ter levado uma goleada ainda maior, mais impiedosa ainda. Pura balela, claro que não queria e não quero. Tudo da boca para fora.

Apesar de não torcer há algumas décadas para a seleção brasileira, por causa das mazelas que envolvem a CBF e o time canarinho, respeito a tradição da camisa pentacampeã do mundo. O 7 a 1 doeu, assim como doeria ainda mais um placar maior para o rival.

A Copa do Mundo no Brasil foi um momento único para mim como profissional da imprensa. Trabalhar nos jogos e nos programas pré e pós-jogos foi realmente marcante. Embarcar no trem na estação da Luz, rumo à Itaquera, em São Paulo, para acompanhar as partidas no Estádio do Corinthians com os torcedores de nações diferentes juntos e misturados, todos num mesmo vagão e num clima de paz e respeito, só um Mundial poderia trazer ao Brasil. Foi demais, único, inesquecível.

A despedida do Brasil da Copa do Mundo foi sofrida, é fato. No entanto, parece ter sido uma punição dos deuses da bola ao país que precisava de muita coisa antes de sediar de novo um Mundial.

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