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Debate: pontos corridos x mata-mata

out 8 • Atlético-MG, Botafogo, Brasileirão, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Goiás, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo, Sem categoria, TICKER, Times, Vasco13 comentários em Debate: pontos corridos x mata-mata

Pontos corridos x Mata-mata. Essa é a discussão do momento nas rodinhas de futebol pelo país. Com o Cruzeiro virtual campeão brasileiro e o nacional restrito apenas à emoção da luta contra o rebaixamento ou da disputa de uma vaga no G-4, o que garante ao clube um lugar na Libertadores do próximo ano, a fórmula de disputa da competição é alvo de críticas e elogios. As opiniões de divergem e a polêmica explode pelo Brasil.

O Blog Salgueiro FC promove agora um debate entre dois jornalistas renomados da mídia esportiva,  com cada um defendendo seu ponto de vista. Acompanhe o debate de ideias e tire sua conclusão. Opine, confronte os pensamentos, concorde, discorde, participe do debate! O espaço também é seu…

DEBATE

Napoleão de Almeida, jornalista e narrador esportivoMataMata2

“Mata-mata no Brasileirão é um retrocesso”

Vamos deixar clara uma coisa: já temos mata-mata no Brasil. Aliás, temos muito mais campeonatos mata-mata do que pontos corridos. Falo da Copa do Brasil, da Libertadores, da Sul-Americana, dos Estaduais em suas fases finais… Enfim, se a razão para se questionar o formato de pontos corridos é a ausência desse formato, não cola.

“Ah, mas o campeonato está sem emoção”… pra quem, cara-pálida? Será que um torcedor do Cruzeiro acha isso? Ou mesmo algum dos 20.661 torcedores do lanterna Náutico, que viram seu clube dar uma pequena arrancada e já apareceram em bom número na Arena Pernambuco para ver o duelo com o líder. Serve pra são-paulinos, coxas-brancas e vascaínos, aflitos pelas situações dos seus times; para botafoguenses, atleticanos e gremistas, empolgados pela chance de Libertadores. Serve para todo mundo que terá calendário até dezembro, sempre com grandes jogos.

O que garante emoção não é o mata-mata; é o equilíbrio da competição. E esse sim está afetado, mas por outra razão: a disparidade das cotas de TV, que deveriam seguir o modelo inglês ou alemão, com divisões proporcionais por audiência, classificação no ano anterior e uma parte igual para todos. Hoje, só a audiência conta. E isso vai criar um abismo entre os clubes – e olha que 2013 é um ano de exceção. Quando os clubes passarem a usar melhor a receita desproporcional, não vai ter mata-mata que resolva. É só ver a Copa do Brasil. Nas oitavas, tínhamos clubes de séries B, C e D na disputa. Só os da A passaram.

Quem defende o mata-mata esquece pontos fundamentais. O primeiro é deixar 12 clubes sem agenda por um mês inteiro, depois de achatar 19 rodadas entre quatro meses. Discute-se um calendário racional e há quem sugira que se deixem ao menos 360 profissionais sem trabalho por 30 dias – falo apenas dos elencos de jogadores. Não esqueçam do pipoqueiro, do ambulante…

Outra coisa é a meritocracia. Quando se joga duas vezes com todas as equipes, com jogos em cada um dos mandos, apura-se o melhor time, indiscutivelmente. Não se discutem os méritos do Santos de Robinho e Diego, mas e toda a campanha do São Paulo na primeira fase, vale de que? E o Atlético-MG vice-campeão invicto em 1977? Será que estes e outros torcedores realmente se emocionaram em ver seus times caírem após dois jogos, onde um erro de arbitragem pode pesar muito mais que ao longo de 38 rodadas?

O mata-mata é ainda um torneio de pontos corridos pela metade: pros rebaixados, que não podem defender sua posição. Os melhores são injustiçados em cima, mas os piores não têm a oportunidade de fazer o mesmo. Pensemos: que tal se o Náutico pudesse se livrar da queda, depois de um campeonato ruim, em um mata-mata contra o Goiás, que tem o dobro de pontos?

Inglaterra, Espanha, Alemanha, todos usam o formato de pontos corridos. São as melhores ligas do Mundo. Nos últimos dez anos, adotamos. Acabaram as viradas de mesa. Tivemos grandes campeões, grandes jogos, por título, contra a queda, por vagas internacionais. Mata-mata no Brasileirão, amigos, é retrocesso.

 

Rodrigo Vessoni, jornalista e repórterMataMata1

“Mata-mata é disputa. É futebol.”

Pergunte a um corintiano sobre a inesquecível decisão do Brasileirão-97, entre Palmeiras e Vasco. Pergunte a um flamenguista sobre a inesquecível final do Brasileiro-95, entre Santos x Botafogo. Pergunte a um atleticano sobre a inesquecível final do Brasileiro-98, entre Corinthians e Atlético Mineiro. Não, eu não estou louco. Com isso, apenas quero ressaltar que, independentemente do seu time, você terá na sua mente as grandes decisões no mata-mata.

Algo que, dificilmente, acontece nos campeonatos por pontos corridos. Fala-se da campanha sensacional do Cruzeiro em 2003, mas quais foram os jogos inesquecíveis? O São Paulo foi tricampeão em 2006/2007/2008, mas quais foram os momentos mais marcantes nas campanhas? Quantas vezes você ficou sem dormir desde 2003 por um jogo decisivo? Quantas vezes você sentiu frio na barriga durante o dia com um jogo do seu time? Poucos lembrarão…

Campeonatos por pontos corridos premia a regularidade, mas torcedor de futebol não liga para isso. Torcedor gosta de emoção, gosta de ver seu time ser desafiado, gosta de falar que um simples jogo se transformou num embate histórico. Não é por acaso que a Libertadores é obsessão para 99,9% dos torcedores. Nessa disputa, diante de cenários tão distintos, péssima organização e mesmo com situações que beiram o esdrúxulo, a sensação de que apenas os fortes sobreviverão é deliciosa. Quando seu time passa por cima do outro, nada dá mais alegria e prazer. Isto é mata-mata. Isto é disputa. Isto é futebol.

Eu poderia falar dos conchavos e malas brancas para prejudicar rivais nos pontos corridos, mas não vou. Eu poderia lembrar que a TV Globo paga milhões e milhões e vê suas audiências caírem todo ano com os pontos corridos, mas não vou. Eu poderia lembrar que jamais teremos um time pequeno ou de médio porte com chance de campeão brasileiro por pontos corridos, mas não vou. Isso todo mundo sabe. Esse sistema de disputa faz com que o 10° colocado nunca tenha chance de ser campeão. Será que Robinho, Diego e Elano teriam surgido se aquele Santos, 8° colocado, fosse eliminado na primeira fase em 2002? Eu duvido…

Eu respeito quem pense ao contrário, mas não concordo. Eu gostaria de um retorno ao passado, com sistema de pontos corridos na primeira fase, mas aquela fase final cheia de emoção, que fazia você sentar à frente da TV e escolher um time que nem era o seu para secar ou torcer. Neste momento, por exemplo, o São Paulo, 16° colocado, estaria apenas a seis pontos da 8ª colocação, que garantiria um lugar na fase final. Como seria legal…

PAREDÃO

Abaixo, os jornalistas fazem perguntas entre si:

Vessoni pergunta para Napoleão:

Se você fosse um executivo da TV Globo, que gasta R$ 500 milhões por temporada, como estaria diante de jogos sem emoção e com a audiência caindo a cada rodada? O que faria nas últimas rodadas quando teremos um time campeão com antecedência? Colocaria filme no lugar?

Se eu tivesse em um cargo tão prestigioso certamente estaria preocupado com o nível de competitividade do Campeonato Brasileiro. Assim, iria propor que dividíssemos melhor a verba que “nós” (o comprador) repassamos aos clubes, seguindo o modelo inglês, que é: 70% divididos igualmente entre os clubes, 15% pela colocação no ano anterior e 15% por audiência. Isso diminuiria a diferença (ao menos em tese) entre os competidores de um mesmo campeonato, sem discutir os méritos que um clube de maior apelo popular tenha em ser mais exibido na TV – embora ele precisa de um adversário para jogar. Aqui, faço um exercício sobre isso, convido-os a ler meu artigo.

Evidentemente, como a discussão caminha erroneamente para o regulamento, vale lembrar que os jogos das últimas rodadas das fases classificatórias eram tão ou mais esvaziados quanto os criticados nos pontos corridos. Clubes que não brigavam por nada e não tinham atração ao público. Este ano, com a ausência dos clubes de SP na ponta da tabela, discute-se muito o Ibope na principal cidade do País. Mas não que faltem bons jogos; falta sim abertura para novos públicos, doutrinados pelas escolhas restritas em muitas praças no Brasil.

Coritiba campeão brasileiro 1985 e Bangu vice-campeão. Atlético Paranaense campeão brasileiro 2001 e São Caetano vice-campeão. Bragantino campeão paulista 1991 e Novorizonte vice-campeão. Guarani campeão brasileiro de 1978. Criciúma campeão da Copa do Brasil de 1991. Juventude campeão da Copa do Brasil 1999. Quando teremos um time de menor expressão e sem dinheiro sendo campeão na fórmula de pontos corridos?

Aqui é preciso uma reflexão: discordo do posicionamento de Coritiba e Atlético como clubes “pequenos”, bem como Sport e Bahia. São clubes de tradição, patrimônio, grandes torcidas e conquistas. Não vejo distinção entre eles e outros dois grandes – um em fase excepcional, se reposicionando mais acima com as conquistas em campo – Atlético-MG e Botafogo, que não a convenção de agrupar RJ-SP-MG-RS como se não existissem outras grandes cidades no Brasil – Curitiba é maior que Porto Alegre e Salvador e Recife maior que ambas.

Dito isto, basta ver que as grandes surpresas de fato ocorrem na Copa do Brasil, que já é um mata-mata. Ou seja, já temos essa emoção. E o Brasileirão, no formato justo, competitivo e emocionante para mais posições e com mais calendário nos pontos corridos, peca pelo fator acima, a distribuição de renda, e não pelo formato. Os Estaduais, exemplo para Bragantino e São Caetano, também não têm surpresas em São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul há algum tempo. A distância que já é grande entre os clubes destes estados e os outros no Brasileirão, pelo lado financeiro, fica abismal se pensarmos em Juventude, América-MG, Volta Redonda, Guarani…

Já tivemos vários casos de entrega nas retas finais. Este ano, sem clássicos nas últimas rodadas, voltaremos a ver um time sem vontade e abrindo as pernas para que um rival seja prejudicado. Isso é esporte? Por que isso nunca aconteceu no mata-mata?

 Eu não posso afirmar que houve entrega em jogo algum sem provar. Como jornalista, tenho que levar ao público apenas fatos concretos. De todo modo, entendendo o conceito da pergunta, jogos como Cruzeiro 6-1 Atlético-MG em 2011, com dois rivais frente a frente, levantaram suspeitas nos pontos corridos como levantariam em qualquer outra situação. Por que o que se discute aqui é ética e não regulamento. Fosse uma última rodada de fase classificatória, seria o mesmo. É o que se discute quando a Seleção de Vôlei de Bernardinho supostamente “entrega” um jogo em um campeonato para fugir de um cruzamento pior. E há defesa, se o confronto futuro for menos desgastante e/ou houver necessidade de se poupar jogadores. Enfim, novamente, atribui-se ao regulamento um desvio ético, fugindo do problema real – que precisa ser comprovado, em primeiro lugar.

Napoleão pergunta para Vessoni:

Qual sua sugestão para o calendário dos clubes com uma suposta volta do mata-mata: reinflar os Estaduais, como era, ou deixar os clubes com mais tempo ocioso?

Eu deixaria o tempo ocioso para os eliminados, assim poderiam excursionar livremente pelo exterior e ganhar mais dinheiro do que ganhariam com estádios vazios nos jogos que não têm apelo de resultado.

Uma das principais defesas do mata-mata é a “emoção” – algo subjetivo. Como explicar para um torcedor do Cruzeiro, por exemplo, que o time dele que fez a melhor campanha na 1ª fase em 2000 foi eliminado por um time que ficou cinco posições abaixo da dele e, no geral, acabou atrás até do São Caetano, que vinha da 2ª divisão?

Lembraria que, no próximo ano, eles poderão ser o 10° colocado na reta final da primeira fase e, certamente, lamentarão não ter a mesma fórmula que fez times darem a volta, como o Santos-2002, entre tantos outros. Hoje o Cruzeiro está por cima, mas nem sempre será assim.

Por que essa discussão é levantada agora, em que nenhum clube de São Paulo aparece entre os quatro pela primeira vez em 10 anos, e não se questiona a divisão de verbas, real culpada do desequilíbrio?

Se a divisão de verbas fosse um problema irreversível, as primeiras colocações do Brasileirão não teriam clubes de cotas muito inferiores a Corinthians, Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Vasco. Na Espanha, Barcelona e Real Madrid sempre (!) estão à frente dos outros.

Fotos: Divulgação

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